Arquiteto por profissão, poeta por vocação, matuto por convicção. Paraibano de Campina Grande filho adotivo de Itabaiana onde reside há dezessete anos. Autor dos livros: Paisagem de Interior (poesia), Agruras da Lata D'água (poesia), O Chapéu Mau e o Lobinho Vermelho (infantil), Prosa Morena - acompanhado de CD com declamações de alguns poemas, músicas e causos, Política de Pé de Muro, A Folha de Boldo Notícias de Cachaceiros - em parceria com Joselito Nunes, o mais recente, Berro Novo, além de causos, músicas, cordéis e outros escritos. Todos publicados pelas Edições Bagaço - Recife/PE.
COMÍCIO DE BECO ESTREITO
Jessier Quirino
Pra se fazer um comício Em tempo de eleição Não carece de arrodei Nem dinheiro muito não Basta um F-4000 Ou qualquer mei caminhão Entalado em beco estreito E um bandeirado má feito Cruzando em dez posição.
Um locutor tabacudo De converseiro comprido Uns alto-falante rouco Que espalhe o alarido Microfone com flanela Ou vermelha ou amarela Conforme a cor do partido.
Uma gambiarra véa Banguela no acender Quatro faixa de bramante Escrito qualquer dizer Dois pistom e um taró Pode até ficar melhor Uma torcida pra torcer.
Aí é subir pra riba Meia dúzia de corruto Quatro babão cinco puta Uns oito capanga bruto E acunhar na promessa E a pisadinha e essa: Três promessa por minuto.
Anunciar a chegança Do corruto ganhador Pedir o "V" da vitória Dos dedo dos eleitor E mandar que os vira-lata Do bojo da passeata Traga o home no andor.
Protegendo o monossílabo De dedada e beliscão À cavalo na cacunda Chega o dono da eleição Faz boca de fechecler E nesse qué-ré-qué-qué Vez por outra um foguetão.
Com voz de vento encanado Com o VIVA dos babão É só dizer que é mentira Sua fama de ladrão Falar do roubo dos home Prometer o fim da fome E tá ganha a eleição.
E terminada a campanha Faturada a votação Foda-se povo, pistom Foda-se caminhão Promessa, meta e programa... É só mergulhar na brahma E curtir a posição.
Sendo um cabra despachudo De politiquice quente Batedorzão de carteira Vigaristão competente É só mandar pros otário A foto num calendário Bem família, bem decente:
Ele, um diabo sério, honrado Ela, uma diaba influente Bem vestido e bem posado Até parecendo gente Carregando a tiracolo Sem pose, sem protocolo Um diabozinho inocente.
PARAFUSO DE CABO DE SERROTE
Jessier Quirino
Tem uma placa de Fanta encardida A bodega da rua enladeirada Meia dúzia de portas arqueadas E uma grande ingazeira na esquina A ladeira pra frente se declina E a calçada vai reta nivelada Forma palmos de altura de calçada Que nos dias de feira o bodegueiro Faz comércio rasteiro e barateiro Num assoalho de lona amarelada.
Se espalha uma colcha de mangalho: É cabestro, é cangalha e é peixeira Urupema, pilão, desnatadeira Candeeiro, cabaço e armador Enxadeco, fueiro, e amolador Alpercata, chicote e landuá Arataca, bisaco e alguidar Pé de cabra, chocalho e dobradiça Se olhar duma vez dá uma doidiça Que é capaz do matuto se endoidar.
É bodega pequena cor de gis Sortimento surtindo grande efeito Meia dúzia de frascos de confeito Carrossel de açúcar dos guris Querosene se encontra nos barris Onde a gata amamenta a gataiada Sacaria de boca arregaçada Gargarejo de milhos e farelos Dois ou três tamboretes em flagelo Pro conforto de toda freguesada.
No balcão de madeira descascada Duas torres de vidro são vitrines A de cá mais parece um magazine Com perfume e cartelas de Gillete Brilhantina safada, canivete Sabonete, batom... tudo entrempado Filizolla balança bem ao lado Seus dois pratos com pesos reluzentes Dá justeza de peso a toda gente Convencendo o freguês desconfiado.
A Segunda vitrine é de pão doce É tareco, siquilho e cocorote Broa, solda, bolacha de pacote Bolo fofo e jaú esfarofado Um porrete serrado e lapidado Faz o peso prum março de papel Se embrulha de tudo a granel E por dentro se encontra uma gaveta Donde desembainha-se a caderneta Do freguês pagador e mais fiel.
Prateleiras são tábuas enjanbradas Com um caibro servindo de escora Tem também não sei qual Nossa Senhora Com um jarrinho de louça bem do lado Um trapézio de flandres areados Um jirau com manteiga de latão Encostado ao lado do balcão Um caneiro embicando uma lapada Passa as costas da mão pelas beiçadas Se apruma e sai dando trupicão.
Tem cabides de copos pendurados E um curral de cachaça e de conhaque Logo ao lado se vê carne de charque Tira gosto dos goles caneados Pelotões de garrafas bem fardados Nas paredes e dentro dos caixotes Tem rodilha de fumo dando um bote E um trinchete enfiado num sabão Bodegueiro despacha a um artesão Parafuso de cabo de serrote.
UMA PAIXÃO PRA SANTINHA
Jessier Quirino
Xanduca de Mané Gago Tinha querença mais eu Me vestia de abraço Bucanhava os beiço meu Era aquele tirinete Parecia dois colchete Eu in nela e ela in nêu.
No apolegar das tetas Nos chamego penerado Nas misturação das perna Nos cafuné do molengado Nos beijo mastigadinho Nos açoite de carinho Nós era bem escolado.
Era aquele tudo um pouco Era aquela amoridade Mas faltava na verdade Sensação de friviôco Um querer, uma pujança Daquela que dá sustança Na homencia do cabôco.
No dia que`u vi Santinha Sobrinha do sacristão O bangalô do meu peito Se enfeitou feito um pavão Foi quando esqueci Xanduca Sem mágoa sem discussão Pois vimos que nós só tinha Uma paixãozinha mixa Uma jogada de ficha Uma piola de paixão.
Santinha é a indivídua Que misturou meu pensar Que me deixou friviando Sem nem sequer me olhar Matutinha aprincesada Mulher de voz aflautada Olhosa de se olhar Fulô de beleza fina É a tipa da menina Que se deseja encontrar.
Mas Santinha é quase santa Nem percebe o meu amor Não tem na boca um pecado Tem o beicinho encarnado Pintado a lápis de cor Só tem olhos pra bondade Mas não faz a caridade De enxergar um pecador.
Ah! se eu fosse um monsenhor Um padre, um frei, um vigário Eu achucalhava os sino De riba do campanário Eu abria o novenário Eu enfeitava um andor Botava ela impezinha Feito uma santa rainha Padroeira dos amor.
Arranjava um pedestal Um altar um relicário Chamava todas carola Chamava todo igrejário E dizia em toda altura Com voz de missionário: Oh! minha santa Santinha! Tire este manto celeste Saia deste relicário Olhe pra mim e garanta Que vai deixar de ser santa Que`u deixo de ser vigário!
VOU-ME EMBORA PRO PASSADO*
Jessier Quirino
Vou-me embora pro passado Lá sou amigo do rei Lá tem coisas "daqui, ó! " Roy Rogers, Buc Jones Rock Lane, Dóris Day Vou-me embora pro passado.
Vou-me embora pro passado Porque lá, é outro astral Lá tem carros Vemaguet Jeep Willes, Maverick Tem Gordine, tem Buick Tem Candango e tem Rural.
Lá dançarei Twist Hully-Gully, Iê-iê-iê Lá é uma brasa mora! Só você vendo pra crê Assistirei Rim Tim Tim Ou mesmo Jinne é um Gênio Vestirei calças de Nycron Faroeste ou Durabem Tecidos sanforizados Tergal, Percal e Banlon Verei lances de anágua Combinação, califon Escutarei Al Di Lá Dominiqui Niqui Niqui Me fartarei de Grapette Na farra dos piqueniques Vou-me embora pro passado.
No passado tem Jerônimo Aquele Herói do Sertão Tem Coronel Ludugero Com Otrope em discussão Tem passeio de Lambreta De Vespa, de Berlineta Marinete e Lotação.
Quando toca Pata Pata Cantam a versão musical "Tá Com a Pulga na Cueca" E dançam a música sapeca Ô Papa Hum Mau Mau Tem a turma prafrentex Cantando Banho de Lua Tem bundeira e piniqueira Dando sopa pela rua Vou-me embora pro passado.
Vou-me embora pro passado Que o passado é bom demais! Lá tem meninas "quebrando" Ao cruzar com um rapaz Elas cheiram a Pó de Arroz Da Cachemere Bouquet Coty ou Royal Briar Colocam Rouge e Laquê English Lavanda Atkinsons Ou Helena Robinstein Saem de saia plissada Ou de vestido Tubinho Com jeitinho encabulado Flertando bem de fininho.
E lá no cinema Rex Se vê broto a namorar De mão dada com o guri Com vestido de organdi Com gola de tafetá.
Os homens lá do passado Só andam tudo tinindo De linho Diagonal Camisas Lunfor, a tal Sapato Clark de cromo Ou Passo-Doble esportivo Ou Fox do bico fino De camisas Volta ao Mundo Caneta Shafers no bolso Ou Parker 51 Só cheirando a Áqua Velva A sabonete Gessy Ou Lifebouy, Eucalol E junto com o espelhinho Pente Pantera ou Flamengo E uma trunfinha no quengo Cintilante como o sol.
Vou-me embora pro passado Lá tem tudo que há de bom! Os mais velhos inda usam Sapatos branco e marrom E chapéu de aba larga Ramenzone ou Cury Luxo Ouvindo Besame Mucho Solfejando a meio tom.
No passado é outra história! Outra civilização... Tem Alvarenga e Ranchinho Tem Jararaca e Ratinho Aprontando a gozação Tem assustado à Vermuth Ao som de Valdir Calmon Tem Long-Play da Mocambo Mas Rosenblit é o bom Tem Albertinho Limonta Tem também Mamãe Dolores Marcelino Pão e Vinho Tem Bat Masterson, tem Lesse Túnel do Tempo, tem Zorro Não se vê tantos horrores.
Lá no passado tem corso Lança perfume Rodouro Geladeira Kelvinator Tem rádio com olho mágico ABC a voz de ouro Se ouve Carlos Galhardo Em Audições Musicais Piano ao cair da tarde Cancioneiro de Sucesso Tem também Repórter Esso Com notícias atuais.
Tem petisqueiro e bufê Junto à mesa de jantar Tem bisquit e bibelô Tem louça de toda cor Bule de ágata, alguidar Se brinca de cabra cega De drama, de garrafão Camoniboi, balinheira De rolimã na ladeira De rasteira e de pinhão.
Lá, também tem radiola De madeira e baquelita Lá se faz caligrafia Pra modelar a escrita Se estuda a tabuada De Teobaldo Miranda Ou na Cartilha do Povo Lendo Vovô Viu o Ovo E a palmatória é quem manda.
Tem na revista O Cruzeiro A beleza feminina Tem misse botando banca Com seu maiô de elanca O famoso Catalina Tem cigarros Yolanda Continental e Astória Tem o Conga Sete Vidas Tem brilhantina Glostora Escovas Tek, Frisante Relógio Eterna Matic Com 24 rubis Pontual a toda hora.
Se ouve página sonora Na voz de Angela Maria "- Será que sou feia? - Não é não senhor! - Então eu sou linda? - Você é um amor!... "
Quando não querem a paquera Mulheres falam: "Passando, Que é pra não enganchar! " "Achou ruim dê um jeitim! " "Pise na flor e amasse! " E AI e POFE! e quizila Mas o homem não cochila Passa o pano com o olhar Se ela toma Postafen Que é pra bunda aumentar Ele empina o polegar Faz sinal de "tudo X" E sai dizendo "Ô Maré! Todo boy, mancando o pé Insistindo em conquistar.
No passado tem remédio Pra quando se precisar Lá tem Doutor de família Que tem prazer de curar Lá tem Água Rubinat Mel Poejo e Asmapan Bromil e Capivarol Arnica, Phimatosan Regulador Xavier Tem Saúde da Mulher Tem Aguardente Alemã Tem também Capiloton Pentid e Terebentina Xarope de Limão Brabo Píluas de Vida do Dr. Ross Tem também aqui pra nós Uma tal Robusterina A saúde feminina.
Vou-me embora pro passado Pra não viver sufocado Pra não morrer poluído Pra não morar enjaulado Lá não se vê violência Nem droga nem tanto mau Não se vê tanto barulho Nem asfalto nem entulho No passado é outro astral Se eu tiver qualquer saudade Escreverei pro presente E quando eu estiver cansado Da jornada, do batente Terei uma cama Patente Daquelas do selo azul Num quarto calmo e seguro Onde ali descansarei Lá sou amigo do rei Lá, tem muito mais futuro Vou-me embora pro passado.
*Poema inspirado na leitura do livro Memorial de Marco Polo Guimarães, Edições Bagaço; em conversa antiga; e em outros poemas meus.
ZÉ QUALQUER E CHICA BOA
Jessier Quirino
Empurra a cancela Zé Abre o curral da verdade Pra mostrar pra mocidade Como é que vive um Zé Sem um conforto sequer Com sua latas furadas E a cacimba tão distante Um Zé arame farpante Feito de gente e de fé.
O Zé que se aprisiona Aos cacos velhos da enxada Que nasce herdeiro do nada E qualquer lado é seu caminho Medalhas, são seus espinhos Quedas de bois são batalhas Seus braços, duas cangalhas De taipa e barro é seu ninho.
O Zé metido em gibão Numa besta atrás dum boi Por entre as juremas pretas Por onde o bicho se foi A poder de grito e ois Peitando graveto torto Um dos três vai sair morto Ou ele, a besta ou o boi.
É cabôco elefantado Que não tem medo de cruz Que fita o sol faiscando Dez mil peixeiras de luz O Zé que assim se conduz Nas brenhas deste sertão O Zé Ninguém, Zé Qualquer Mas o Qualquer desse Zé Não é qualquer qualquer não.
É um Qualquer niquelado Acabestrado num Zé Não é Zé pra qualquer nome Nem Qualquer pra qualquer Zé Diante desses apois Eu vou dizer quem tu sois Pode escrever se quiser:
Sois argumento de foice Sois riacho correntoso Tu sois carquejo espinhoso Sois calo de coronel Sois cor de barro a granel Sois couro bom que não mofa Sois um doutor sem farofa Sem soqueira de anel.
Sois umbuzeiro de estrada Sois ninho de carcará Sois folha seca, sois galho Sois fulô de se cheirar Sois fruto doce e azedo Sois raiz que logo cedo Quer terra pra se enfiar.
No inverno sois caçote Espelho de céu no chão Chorrochochó de biqueira Espuma de cachoeira Sois lodo, sois timbungão Sois nuvem quebrando a barra Violino de cigarra Afinando a chiação.
Sois bafo de cuscuzeira Sois caldo de milho quente Sois a canjica do milho Sois milho pessoalmente Tu sois forte no batente Tu sois como milho assado Se não for bem mastigado Sai inteirinho da gente.
Tu desarruma as tristezas Caçando uma risadinha Sois doido, doido tu sois Tu sois um baião-de-dois Tu sois pirão de farinha Sois bruto que se ameiga No amor tu sois manteiga Numa creamecrackerzinha.
Sois um Zé Qualquer do mato Provador de amargor Tu sois urro, sois maciço Devoto do padre Ciço Sois matuto rezador O Zé Qualquer em pessoa Marido de Chica Boa O teu verdadeiro amor.
É Francisca Caliméria Feliciana Qualquer Chica Boa é apelido Pode chamar quem quiser Mas digo as outras pessoas Não digam que Chica "É " boa O cabra que assim caçoa Vê direitim quem é Zé.